Não havia nada que pudesse ser feito, as coisas continuariam sua trajetória rumo ao caos. De posse dessa informação, ele se recostou na cadeira e pôs os pés sobre a mesa, respingando sangue no mármore branco, sentindo orgulho de sua atitude.
Tomara a decisão esta manhã, durante o café, enquanto a televisão transmitia o informe econômico e no jornal as notícias internacionais davam a situação do último conflito no oriente médio. As notícias que recebia dos dois veículos não tinham nada de especial, eram praticamente as mesmas todos os dias e não diziam nada a respeito de sua vida, assim ele via. Só mudavam os lugares e os números, todos os dias.
Ele percebeu que a decisão não havia surgido ali, que ela já era decisão antes, quando a idéia lhe brotou na cabeça. Só estava testando os argumentos até aquele momento e foi como se o papel da imprensa ali fosse o de dissuadí-lo de seus propósitos. Gostava de pensar todos os dias, que encontraria um motivo para não fazer o que fez e que poderia então parar de pensar nisso. Na verdade sua esperança, não, não era esperança, sua convicção era a de que isso não aconteceria. E cada vez que via sua decisão reforçada pela mídia, sentia aquilo como uma pequena vitória.
Saiu de casa na manhã cinzenta, olhou em volta, ninguém na rua. Ele saiu cedo demais para o trabalho, levava consigo a bolsa e um guarda chuva. Não pode evitar o sorriso irônico ao perceber a incoerência de levar um guarda chuva para o trabalho, naquele dia. Riu de seu patético instinto de auto-preservação. De que adiantava agora?
Estava certo de que não fora seu asco natural pela humanidade que o levara aquele caminho. Certificou-se de que seus objetivos fossem realmente nobres, testou cada um dos argumentos, foi impiedoso consigo mesmo ao considerar-se cruamente como completo idiota e totalmente desprovido de importância, apenas para ter certeza de que suas ações não seriam movidas por egoísmo.
Entrou no carro e largou a bolsa e o guarda chuva no banco de trás, começou a passar o cinto de segurança e desistiu do ato, dessa vez sem achar graça da inutilidade daquela precaução. Encarava esses cuidados, não como o hábito automático que desenvolvera nos 55 anos em que viveu, respeitando as leis e os costumes, mas como uma súplica de seu corpo, de sua mente inconsciente para que não executasse seu plano.Ele tinha medo, e isso o deixava irritado e ainda mais obstinado.
Quantas vezes ele já havia imaginado esse fim? Era uma fantasia que o acompanhou desde a infância, quando, em devaneios imaginava a situação e as consequências. Sempre imaginava inúmeros contratempos com os quais tinha que lidar para alcançar o objetivo.
Não escondeu a satisfação de passar reto pelo starbuck, onde todos os dias comprava o café que levava para o trabalho. Era uma vitória sobre o medo. Dirigiu rápido, apesar de ter bastante tempo e logo chegou ao prédio principal, onde ficava o seu escritório. Pegou a bolsa (e deixou o guarda chuva), desceu do carro e andou até a entrada do prédio. Calculou se foi sinal de fraqueza estacionar o carro na mesma vaga de sempre e concluiu que devia fazer tudo o que faz habitualmente, para não levantar suspeitas.
Hoje o sistema de trancas estava sendo reparado, sabia que teria 10 minutos. Passou rápido pelo escritório e pegou a chave que somente ele possuía. Em qualquer situação natural somente essa chave não seria o bastante, o sistema de trancas impediria a entrada de quem quer que seja naquela sala sem uma autorização formal do comitê de avaliação. 75% dos membros deveriam ser reunidos a qualquer hora que isso fosse necessário, o voto seria imediatamente transmitido para o sistema que liberaria a porta. Mas hoje não.
Os 3 guardas estavam parados, a 25 metros da porta o primeiro e a 35 metros os outros 2, com 10 metros entre eles, conforme o protocolo específico, aguardando a reativação do sistema de trancas. O problema de sistemas infalíveis é que a infalibilidade provoca confiança excessiva. O protocolo prescreve que os três guardas deveriam estar empunhando suas armas e em estado de alerta total. e deveriam atirar em qualquer pessoa que ultrapassasse o centro do triângulo em que se posicionavam. As armas deveriam estar apontadas para o candidato que se posicionasse ao centro do triângulo, até que suas credenciais fossem checadas e sua autorização confirmada. As armas sequer estavam preparadas quando ele se posicionou ao centro do triângulo e disparou as duas pistolas contra os guardas mais afastados. Recebeu o tiro disparado pelo terceiro no ombro, pouco antes de derrubar também esse. Mas essa era uma situação que tinha previsto, fazia parte do risco e no final, estava certo sobre os resultados.
Antes de sentir qualquer dor, girou a chave e digitou o código manual de abertura. Entrou e trancou a porta por dentro. Acionou o botão vermelho no centro da sala.
Seu último pensamento, foi a constatação de que esses botões sempre são vermelhos…