Usava sapatos apertados e fazia concessões à todos. Não sabia cortar as pessoas. Por isso todas as suas amigas choravam no seu ombro. Os amigos nerds vinham falar de seus universos herméticos de fixações infantis ou pretensões artísticas que pouco ou nada tinham a ver com seus interesses. Era tido como “compreensivo” um “amigo leal”, que “sabe guardar segredo”, que “sabe ouvir”, um “cara legal”.
O saldo disso é que ninguém telefonava em seus momentos de solidão, ninguém ouvia seu desabafo quando precisava e em geral não era procurado quando os amigos não tinham problemas ou quando não descobriam nenhum novo rpg, game ou mangá, ou quando não tinham nenhuma composição nova.
Percebeu com o tempo, que se ficasse quieto, emitindo um “aham” de vez em quando, ou rindo quando isso fosse esperado, poderia viajar à vontade sem que sequer fosse percebida a sua desatenção. Uma ocasião ficou durante horas em estado de semi-consciência enquanto um amigo lhe narrava uma saga de um personagem japonês. Também executou uma sinfonia inteira em sua memória enquanto lhe mostravam uma música “feita para o cazuza” (quando disse “genial!!” provavelmente se referia à sinfonia).
Aos poucos foi desenvolvendo uma realidade paralela em que utilizava partes do que lhe falavam, desconstruídas por sua imaginação. Traçava fantasias sexuais com as amigas que choravam no seu ombro, utilizando elementos das histórias de rpgs e mangás que ouvia, com trilha sonora das composições dos amigos, com novos arranjos dele próprio (às vezes com letras traduzidas para idiomas eslavos para fazerem mais sentido). As poesias que ouvia misturavam-se a dragões e armaduras para derrotar namorados que traiam e reestabelecer a paz no universo.
Reduziu seu vocabulário a umas poucas exclamações: ahãm, nooossa!!, sério?, puxa!!. As expressões do rosto eram instintivamente moldadas sempre que se fazia necessário: preocupação, riso, interesse. Não era necessário ter mais do que essas emoções. Nunca ninguém imaginou seu dispositivo. parava de reagir quando a pessoa ia embora e reiniciava quando outra chegava.
Um dia se revoltou, interrompeu um amigo que discorria sobre buracos negros e viagem no tempo e disse: Espere um momento!! Então tirou os sapatos apertados e concluiu: Pode continuar.

acho que já ouvi essa história… mas algumas pequenas partes não conhecia……..
Isso é apenas ficção, qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência!
aham.
Por vezes parecia que tinha vivenciado tal relato. Por vezes não. Mas mantenho um ar interessado em vossa narrativa e digo, por fim : “nossa…que interessante”
Qual será o próximo capítulo da lamentável saga permeada de histórias lamentáveis ?
parece que eu conheço essa história também ehehh
humpf também sempre fui a amiga compreensiva que sabe guardar segredo… Vou tentar adotar “ahans” p ver se funciona… hehehhe