A gota cai, meus olhos acompanham a trajetória até o balde, onde a fusão com a agua acumulada provoca ondas concêntricas que se chocam com as ondas causadas pela gota anterior, formando padrões complexos de movimentação na superfície da água.
Essa goteira, eu penso, sabendo que essa constatação provocará interações complexas envolvendo a síndica do prédio, a imobiliária, o vizinho de cima, um encanador, muitos telefonemas e alguma dor de cabeça.
Em outro nível a simples menção de interações complexas faz brotar à mente o caos de contas vencidas, empréstimos, cheques e faturas que inexplicavelmente se assemelham ao efeito da gota caindo no balde.
Nada pode ser independente e toda situação carrega em sua ocorrência a onda provocada por todas as outras situações que vieram antes dela.
Eu não teria a goteira no teto e as faturas vencidas se não tivesse decidido gastar todo o meu primeiro salário com coisas efêmeras e de pouca utilidade. Isso foi há 11 anos atrás, e a vibração ainda é sentida pela goteira no meu teto.
Nesta existência, onde todas as situações são interligadas e geram consequências que se sobrepõem e se manifestam em todos os níveis, esperar que as coisas mudem sem vibrar as cordas é algo bastante ilógico e idiota.
Entretanto é o que tenho feito…
