Não podemos fundamentar nossa auto-estima sobre comparações. Fácil dizer né? Demorei anos para aprender isso, mas sem dúvida foi uma das coisas mais importantes que percebi sobre as pessoas.
Comparações são cruéis e não necessariamente verdadeiras, na verdade são invariavelmente falsas sob muitos pontos de vista, mas sempre escolhemos os pontos em que elas justificam nossos medos e fracassos.
Qualquer avaliação por comparação é tendenciosa, perigosa e quase nunca conduz à satisfação. É uma forma de limitar as possibilidades livres de uma pessoa à ação predeterminada de outra.
Tá, mas e como parar de comparar? Pois é, daí o buraco é mais embaixo. Não existem fórmulas ou prescrições médicas para isso, mas tem alguns conceitos que funcionaram comigo.
Em primeiro lugar, é preciso abandonar a ilusão de que podemos ser melhores do que qualquer pessoa em qualquer coisa. Não que eu não possa ser melhor do que alguém, mas isso é realmente irrelevante e impossível de medir. Partamos do princípio que as pessoas são muito diferentes e tem interesses, comportamentos, pensamentos, sentimentos, necessidades e reações diferentes, valores e julgamentos de valores diferentes e por isso preferências diferentes. Parece óbvio, mas é fácil esquecer isso quando nos concentramos em nossos interesses egocêntricos.
Quando nos comparamos com alguém, isolamos um comportamento dessa pessoa em relação ao objeto de interesse – que quase sempre é outra pessoa ou grupo de pessoas – e isoladamente comparamos as habilidades de um e do outro naquele contexto isolado, para aquele alvo específico. Nesse processo, normalmente ignoramos a maior parte das interações possíveis, que se fossem equacionadas, alterariam a comparação. Interações que abrangem outras habilidades tão ou mais importantes para o objetivo e até mesmo as expectativas do alvo em relação ao que se compara.
Ok, eu me explico melhor. Só por que uma pessoa corre mais rápido do que outra, não significa que ganharia uma maratona. Vi dia desses na televisão uma corrida entre um atleta, um lixeiro e outras pessoas que não lembro bem, era uma corrida curta, 100 m talvez mais. O lixeiro ganhou. Mas se o percurso fosse mais longo, exigisse mais resistência do que propulsão, talvez o resultado fosse diferente. O que quero dizer é que não é só a habilidade imediatamente relacionada a uma coisa que determina que você é melhor ou pior que outra pessoa ao fazê-la. Existem muitos outros fatores que tendemos a ignorar.
Tudo bem, mas o que isso tem a ver com auto-estima ou com o comportamento humano? Tudo, quando nos comparamos com alguém, o fazemos com expectativas em relação ao resultado e geralmente inseguros de que este nos seja favorável, e este fato por si só aumenta a tendenciosidade do raciocínio.
Comparações são mecanismos lógicos perfeitamente válidos e muito úteis, são a base de nossos sistemas de medidas, das balanças, do sistema financeiro e, por que não, de toda a matemática. Mas se a ferramenta funciona bem com objetos exatos, racionais, não acontece o mesmo com o comportamento humano. Somos inexatos, irracionais. Nosso comportamento é fruto de interações complexas que somos incapazes de enumerar e avaliar com precisão.
Por esses motivos fujo das comparações. Elas são legado de um racionalismo extremo que procurou dimensionar o comportamento humano – reduzir seria mais apropriado – a uma atividade puramente mecânica, onde não há problema que um bom cálculo não resolva.
A comparação é um hábito tão enraizado subconscientemente que praticamente não há como evitá-la. Mas sabendo a origem dessas conclusões, podemos, aí sim racionalmente, desacreditá-las e buscar soluções mais dinâmicas e apropriadas para nossos problemas.
