Ela cheirava a flores mortas. Era o excesso de maquiagem que a tornava vulgar para alguns e especial para mim. Especial porque era tão humana, tão clara. Seus medos e suas ilusões eram tão legíveis que era translúcida. As noites com ela tinham uma espiritualidade carnal tão forte. Eram carregadas de uma luxúria mundana tão sincera, transbordava de nós dois. Eramos parecidos assim, usando um ao outro para nos saciarmos, uma fome que nunca passava.
Gostava do jeito que fumava, de como soprava ruidosamente a fumaça no ar, o filtro do cigarro manchado de batom vermelho. Gostava de seus olhares. Olhava para mim como se me dissecasse, me classificando em seus pobres modelos. A verdade é que não entendia muita coisa. Mas eu também não. Então olhávamos um para o outro do mesmo jeito, um se achando mais esperto que o outro, ambos olhares dizendo: “não caio nesse teu jogo”.
Essa era a graça da coisa. Uma piada com uma blue note. Durou pouco, mas marcou forte. Da única maneira que poderia ser.

3 coisas:
1) Às vezes textos curtos dizem o suficiente. Foi o caso;
2) Me lembrou um texto do, acho que, C.F.Abreu. Diz algo como “Uma boca eternamente com fome de outra boca.”;
3) Me lembrou uma ficcção minha, a Divina. http://tragedia.wordpress.com/2007/08/16/divina/
Te cuida, Derbi.
Ser comparados com grandes autores como CFA e FP é pra mim uma felicidade!
e viva os textos, curto, sentidos, vividos, festejados ou doídos!!! O suficiente é o tênue limite que torna uma experiência vivenciável ao leitor.
P.S. Off topic: Adorei que o corretor ortográfico do firefox não conhece a palavra “tênue” e sugeriu manoel como correção!!
Uau… First of all, mil agradecimentos pelos comentários no meu blog. Nada como um comentário inesperado e gratuito de um estranho para fazer a gente se sentir genuinamente importante! Heheheh… Sensibilidade cruel? Grata, mesmo. Mas estive te lendo também e fiquei com invejinha! Bom demais!