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Archive for março \04\UTC 2006

— Não há muito pra fazer aqui! — Diz o agitado coletador de evidências. Impossível não associar a imagem dele à de um personagem de desenho animado. é magro e encurvado, grandes óculos sobre o grande nariz. A aparência de abutre é quase compatível com sua profissão. Mas não, há um ligeiro desvio, os abutres estão lá embaixo!

Ela era famosa, eu mesmo já a havia visto pela televisão, eu não costumo assistir televisão. Os abutres são o atestado de sua fama. Um documento inútil, a essa altura.

O quadro começa a se formar na minha cabeça: a porta fora arrancada de seu lugar de uma única vez. Ou o assassino usou algum tipo de equipamento, ou era mesmo muito forte. A ausência de marcas na porta e a violenta pressão feita sobre a garganta da moça resolvem a dúvida. Provavelmente um profissional, rápido, limpo, eficiente, estrangulou até o momento exato em que não precisava mais fazer força, então a deixou e foi embora, sem tocar em nada, provavelmente sem dizer nada. Um perito, bastante sério, nada de recados, bíblias, últimos pedidos, nada dessa parafernalha toda.

Não houve qualquer preocupação em nos confundir, tentar forjar um assalto, acidente ou a ação de um louco, simplesmente uma mulher estrangulada. O que deveria reduzir as hipóteses acaba nos confundindo ainda mais. Na verdade há, nas tentativas de encobrir e desorientar nosso trabalho, pequenas incorreções, ambiguidades (Freud chamaria de "atos falhos"), que nos revelam o responável. Invariavelmente é assim que acontece. Mas nesse caso, a crueza dos fatos nos desarma. Uma simples morte, quem iria querer um simples assassinato, com tantas opções cinematográficas disponíveis por aí!!

Mas a verdade é essa e estamos perdidos. O pessoal do departamento vai interrogar as testemunhas sobre um cara grande, monstruosamente grande, pelo tamanho dos dedos. Com sorte, uma descrição e um fio de cabelo. Nada sob as longas unhas da vítima, afinal, ele não era um amador. Então bateremos a descrição com o sistema e provavelmente dois ou três sujeitos fichados pularão na tela, serão abordados e provavelmente nenhum será o nosso homem e a investigação continuará até que os abutres se cansem. Esse é o meu trabalho e eu estou farto dele!

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