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Archive for junho \27\UTC 2006

Não suba!!!

As coisas escorrem das minhas mãos como sempre escorreram, até não existirem mais nem na memória. Perco tudo o que conquisto e não posso fazer nada para mudar isso, só olhar as coisas e as pessoas se afastando de mim como se nunca estivessem perto, como se eu as visse por uma lente de ampliação que por fim quebrou.

Nada muda, tudo permanece estático. O tempo existe para ser morto. Não faz diferença nenhuma. Num nível atômico, a matéria não precisa de motivos para existir e, em última análise, até a vida é ilusão, afinal, não passa de compostos de de carbono.

Mas as coisas e pessoas continuam a me preocupar e atormentar e minha existência de carbono teima em procurar o sentido de tudo. Não há sentido, isso é certo, é a única coisa que faria sentido, se não fosse um paradoxo.

Devo andar, andar, andar e depois dormir. Deixar a maldita letargia me dominar de novo. Mais uma vez a minha própria inutilidade na cadeia alimentar humana me grita lá de cima: Não suba!!

Não eu não vou, pelo menos nas próximas oito horas… Não nas proximas doze, ou nas próximas dezesseis…

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Imagem aí de cima

Agora que o wordpress.com liberou, eu vou trocar de imagem como troco de cueca (uma vez por semana).

Essa daí é de uma foto do William Gottlieb. É a 52nd Street, no Harlem, em Nova York, por volta de 1945. Nesse lugar, nessa época, Dizzy Gillespie e Charlie "Bird" Parker fundaram o Be Bop. Além deles outras figuras que não tinham mais o que fazer a não ser inventar a melhor música do mundo, como Thelonious Monk, Bud Powell e Max Roach davam as caras por lá.

Era lá que funcionavam, além de um monte de outros, o Tree Deuces (que aparece aí na foto) e, principalmente, o Minton's Playhouse. Um lugar mitológico onde essa gurizada ia brincar de fazer milagre. Lugarzinho massa né? até lembra um pouco a Lima e Silva, não acham? hehehehhehe

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Perdas

Hoje esqueci a minha idade. Passei metade da tarde pensando que eu tinha 26 anos e achando isso estranho. Claro, eu tenho 25. É que uma amiga minha fez 26 mês passado e não sei porque misturei tudo.

É sempre assim, me contam uma história e eu repasso ela como se tivesse acontecido comigo ou vice-versa. Isso porque eu nunca me lembro bem das coisas que aconteceram comigo. Não todas é claro, mas essas corriqueiras que se conta em barzinho.

Esqueço o dia de hoje sempre, esqueço onde coloquei as coisas, esqueço de pagar as contas, de apagar a luz, de ligar, de sacar dinheiro. Esqueço que estou sem dinheiro e compro coisas que não vou poder pagar. Esqueço de lavar a roupa. Tenho dificuldades para planejar. Me atraso sempre. Não cumpro prazos. Não consigo fazer duas coisas ao mesmo tempo, por mais idiotas que sejam. Entro em devaneios no meio de conversas, não ouço as pessoas.

Minha médica me disse que eu tenho déficit de atenção. Estou lendo sobre isso e acho que tenho mesmo. Fiz um desses testes em sites de médico (tá, eu sei, mas eu não tava procurando diagnóstico). No teste, mais de 5 respostas nas opções 3 ou 4 indicavam grande probabilidade de ter essa moléstia aí. No meu deu 14!!!

Em outro site, (esse com a referência bibliográfica feita bem direitinho, conforme a ABNT!) eu fiz o teste e deu assim: na parte A, referente à desatenção, eu marquei TODAS (!!!) na "zona crítica" (muito frequentemente) e na parte B, de hiperatividade/impulsividade, marquei poucas.

Eu sei que isso não é diagnóstico, mas pode ajudar. Pelo que percebi esse segundo teste parece ser sério. Eu gostaria que meus amigos que lêem o meu blog e me conhecem o suficiente fizessem esse teste pra mim. Para eu ter certeza que não é só mais um truque da minha baixa auto-estima, ou do meu saudável pessimismo.

O DDA não é um négócio que a pessoa está, é um negócio que ela é. Bom, se eu realmente tiver esta pereba aí, significa que meu cérebro veio com defeito, que é menor que o das outras pessoas, que eu sou um deficiente mental!!!

Será que eu vou poder me inscrever nas vagas para deficientes em concursos?

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Raiva

Eu tenho aquele tipo de raiva surda que oxida o sangue e embota a visão. É um tipo de raiva que turva a mente e transforma flores em inimigos de escudo e espada.

Não precisa muito tempo pra que essa raiva se torne uma amargura resignada e passe a integrar o saldo de minhas derrotas.

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As notas cambaleiam em uma linha invisível que somente mantém a música, a única linearidade possível. Há uma faixa invisível que delimita o improviso, que impede que acordes simplesmente caiam no absurdo. Esse malabarismo caótico e organizado, esse descontrole controlado, em faixas que lembram um gráfico cartesiano, é o Jazz que me liberta.

Não entendo como aqueles negões e negonas conseguiam sintetizar a dor e o sangue na música, em um eletrocardiograma sonoro. Nunca se repete, sempre é novo, com fôlego libertário.

A áfrica empresta o ritmo, a europa empresta os instrumentos e a técnica. A dor, a opressão, o preconceito, a pobreza, o alcoolismo, o sexo, o vício e a noite geram a melodia. Old melodies, ooold melodies…

E eu fico aqui paralizado. Maravilhado com essa criação humana. Sombria, triste e raivosa, mesmo quando aparenta alegria.

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A árvore (The tree) talvez seja o conto mais significativo da primeira fase de Klober. Certamente é o que mais caracteriza esta fase. É possível encontrar nele as marcas que o diferenciariam dos libertinos, quase não podendo ser comparado aos mesmos, assim como suas tendências que o aproximam do realismo fantástico, corrente literária que sequer prenunciava sua existência à época. Borges diria em 75 que Klober "antecipou o surgimento da imaginação", revelando o profundo respeito que tinha pelo escritor.

Na construção do conto pode-se perceber que a semelhança de Klober com os realistas fantásticos não se dava apenas na utilização de situações absolutamente absurdas na composição de seus personagens ou como elemento narrativo, mas também na relação desses contextos fantásticos com o mito, porém com uma acepção claramente freudiana.

O carvalho que se torna homem seria utilizado inversamente por Gabriel Garcia Marques em "Cem anos de solidão", sem a relação que Klober fazia com o falo paterno.

Há na construção de "A árvore" o prenúncio de sua veia satírica. É célebre o caso, ocorrido exatamente à epoca do conto, da duquesa de Birmingham que havia passado duas semanas em cima de uma árvore, acometida de uma histeria súbita, curada pelo próprio Freud. A anologia do conto é clara.

Também o nome "Amelie" não foi escolhido por acaso: trata-se da jovem botânica que descobriu a raiz que traria a cura para a doença de Haisenfeld.

Quando escreveu "A árvore" Mark Klober tinha apenas 13 anos e já sua fama de sátiro, beberrão e depravado se espalhava por toda Londres. O conto foi publicado, junto com 5 outros, em uma edição totalmente precária, sob o selo da editora marginal "Gnosis" que operava em um subúrbio de Londres. A edição teve tiragem de 5.000 exemplares, dentre os quais 3.000 permaneceram nos porões da editora, por falta de pagamento. 

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A árvore

Sempre que eu passava pelo bosque, observava aquele belo carvalho, encantador, com seu tronco forte e seus poderosos galhos. Ficava admirando a saliência de um galho, na altura da minha cintura que não tinha intenção de ser galho, mas de imitar uma genitalia masculina ereta. Aquilo me excitava. Como foi um carvalho imitar um homem a ponto de parecer ainda mais viril que qualquer um? Nunca contei à ninguém sobre o meu carvalho. Diriam que Amelie está ficando doida, mas a verdade é que quase todas as noites eu saia para ver meu amado… e seu pênis vegetal. Entreguei minha castidade àquele galho assombroso, e tive certeza de que fui sua melhor amante.

Estudei botânica, tentando entender melhor meu amado. Graças aos meus conhecimentos evitei que uma praga o matasse. Como retribuição, fodeu-me como nunca antes, seu galho havia crescido, provocando em mim um prazer indescritível!!

Meu carvalho está virando homem, seu tronco se divide na base formando pernas, dois galhos formam os braços que afagam meus seios com suas folhas. Eu estou me tornando árvore. Já folhas começam a brotar de meus cabelos e preciso andar de pés descalços para me alimentar da vitalidade da terra.

Outro dia me acordei com raízes e foi necessário muito esforço para remover meus pés do chão, na primavera meu cabelo florece e fica amarelo. No outono minhas folhas e flores caem.

Há duas semanas durmo ao lado de meu carvalho. Já estou presa ao chão. Minha irmã me traz comida enquanto não me transformo totalmente. minha mãe me diz que sempre farão picniques à minha sombra, e que comerão dos meus frutos na primavera…

KLOBER, Mark R. A árvore. In: O nu e o invisível: contos selecionados de Marc Klober.  São Paulo: Literatta, 1978, 408 p.

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