Feeds:
Posts
Comentários

Archive for julho \28\UTC 2006

Usava sapatos apertados e fazia concessões à todos. Não sabia cortar as pessoas. Por isso todas as suas amigas choravam no seu ombro. Os amigos nerds vinham falar de seus universos herméticos de fixações infantis ou pretensões artísticas que pouco ou nada tinham a ver com seus interesses.  Era tido como “compreensivo” um “amigo leal”, que “sabe guardar segredo”, que “sabe ouvir”, um “cara legal”.

O saldo disso é que ninguém telefonava em seus momentos de solidão, ninguém ouvia seu desabafo quando precisava e em geral não era procurado quando os amigos não tinham problemas ou quando não descobriam nenhum novo rpg, game ou mangá, ou quando não tinham nenhuma composição nova.

Percebeu com o tempo, que se ficasse quieto, emitindo um “aham” de vez em quando, ou rindo quando isso fosse esperado, poderia viajar à vontade sem que sequer fosse percebida a sua desatenção. Uma ocasião ficou durante horas em estado de semi-consciência enquanto um amigo lhe narrava uma saga de um personagem japonês. Também executou uma sinfonia inteira em sua memória enquanto lhe mostravam uma música “feita para o cazuza” (quando disse “genial!!” provavelmente se referia à sinfonia).

Aos poucos foi desenvolvendo uma realidade paralela em que utilizava partes do que lhe falavam, desconstruídas por sua imaginação. Traçava fantasias sexuais com as amigas que choravam no seu ombro, utilizando elementos das histórias de rpgs e mangás que ouvia, com trilha sonora das composições dos amigos, com novos arranjos dele próprio (às vezes com letras traduzidas para idiomas eslavos para fazerem mais sentido). As poesias que ouvia misturavam-se a dragões e armaduras para derrotar namorados que traiam e reestabelecer a paz no universo.

Reduziu seu vocabulário a umas poucas exclamações: ahãm, nooossa!!, sério?, puxa!!. As expressões do rosto eram instintivamente moldadas sempre que se fazia necessário: preocupação, riso, interesse. Não era necessário ter mais do que essas emoções. Nunca ninguém imaginou seu dispositivo. parava de reagir quando a pessoa ia embora e reiniciava quando outra chegava.

Um dia se revoltou, interrompeu um amigo que discorria sobre buracos negros e viagem no tempo e disse: Espere um momento!! Então tirou os sapatos apertados e concluiu: Pode continuar.

Read Full Post »

Querido ócio

Hoje eu reparei que faz muito tempo que eu não penso as coisas como antes. A maior parte dos meus atuais devaneios são semi-projetos de coisas que eu quero fazer ou ter. Fico imaginando os passos lógicos para conquistá-las ou então sonhando que já tenho tudo. As vezes da forma natural, “suada”, ou então ganhando uma herança, mega sena, salvando um milionário da morte, esse tipo de coisas. Pensando em resolver as questões materiais da vida ou como seria se elas já estivessem resolvidas.

Não existe nada errado nisso, na verdade é saudável e isso é óbvio. Mas existem outras formas de ocupar a mente, igualmente importantes ou até mais. Eu sinto como se estivesse perdendo a sensibilidade, não me preocupando mais com as coisas simples, com as tentativas de entender o mundo e as pessoas, com os impulsos criativos que surgem do ócio.

Pode ser dito que essa mudança de atitude representa uma mudança de fase da vida, a perda de ideais revolucionários adolescentes, o amadurecimento. Que essas novas preocupações são mais importantes que as antigas, que eram coisas de criança. Não é isso.

Não estou buscando uma vida de ócio, com tudo que é necessário ao alcance da mão. Isso seria ótimo e também seria uma idiotice completa tentar viver assim, é impossível. Só acho que nossa mente não deve estar ocupada com planos materiais e projetos de vida o tempo todo, nem mesmo na metade dele. Ser mais um zumbi produzido em série para o funcionamento e manutenção de um esquema social não é o um bom objetivo

Perdemos muito de nossa capacidade deixando de ser inocentes, caindo na “putaria da vida”, e não o contrário. Não nos tornamos melhores trabalhando e tentando ganhar a vida, nos estragamos. Perdemos o que temos de melhor, e não ganhamos muito em troca.

O computador onde eu estou digitando agora tem uma falha que é sintomática, aliás duas, percebi agora.

  1. O word aqui não reconhece a palavra “agora”.
  2. Ele corrige automaticamente a palavra “ter” para “Ter”, como se fosse “Deus” ou pronome que se refere à Ele.

Sim, é uma falha na configuração do programa. Não, não penso que seja uma conspiração da Microsoft. Mas de qualquer forma, representa bem o que eu estou dizendo. Não se fala mais em flores porque temos que Ter tudo. E temos que pensar o futuro porque não existe agora.

Read Full Post »

Viscosidade

O lugar onde eu trabalho daria um prato cheio pro foucault ou para alguém das sociais que se interesse pelo fluxo das relações de trabalho. Daria um prato cheio para qualquer bom escritor que saiba tirar a essência da mediocridade e colocar em palavras que mostrem o contundente universo da pobreza de espírito humana.

Para mim não dá, porque de certa forma faço parte dela estando lá, parte da trama principal da história. Mas bem que eu queria. Uma hora vou tentar fazer um troço assim. Sei que só quatro pessoas lá lêem isso, vou fazer umas historinhas de lá, hora dessas, aguardem!!! hehehehe

Read Full Post »

Noite

A noite sempre me encantou e assustou. Minha relação com ela sempre foi assim, uma certa paixão platônica, uma espécie de admiração distante. Parece que meus sentimentos fortes só surgem mesmo de noite. Com uma intensidade pré-histórica, irracional. Acho que é assim.

Durante o dia tudo parece tão ordeiro, habitual (estou falando de dentro de mim), não que o dia seja organizado, mas certas coisas fazem mais sentido.

Noite, nada faz mais sentido. Tudo se amplia e perde o foco. Eu lembro de um dia, um evento em uma igreja luterana, não aguentei ficar lá dentro (não aguento ficar em lugares que não me dizem respeito) e saí. Fiquei numa praça ao lado, umas 22h eu acho, e tudo ao meu redor parecia tão mais concreto que chagava a ser irreal.

Read Full Post »

Ilusões

Eu tô um pouco cansado de mim mesmo, de minhas falhas, da minha cabeça incompleta. Eu poderia simplesmente não me preocupar com nada, como uma mendiga nua na josé do patrocínio, mas seria apenas romantizar a coisa e, chega de romantismo pra mim.

A ilusão de não estar sozinho no mundo. A Lu escreveu sobre isso no blog dela. Me caiu umas fichinhas disso aí. É uma coisa difícil de se acostumar, ficamos com aquela lenga lenga de ninguém nos ama ninguém nos quer. Deve existir dezenas de milhares de blues sobre isso.

Mas na verdade, é só isso. A simples e fria lógica do mundo. Somos sim, sozinhos desde que nascemos, nossos pais nos criam e protegem por obrigação, imposição social. Não que eles não nos amem, amam sim. Só que na primeira vez que tiverem a oportunidade de se ver livres de nós vão perceber como isso é bom.

Não há pessoa no mundo que esteja com você, que faça as coisas com você, que cresça com você. Relações assim são as que menos dão certo. Elas impedem que se rompa com tudo e todos e que se viva a verdadeira vida, sozinho, sem auxílio. Não, o Derbi não está se queixando de novo, não está reclamando de nada tentando fazer alguém sentir pena dele.

É que isso é bom! A dor da perda da ilusão e do conforto ilusório é como o parto da gente. Uma dor e um trauma necessários. Depois disso vem a verdadeira liberdade e uma espécie de autoconhecimento impossível de outra forma. A incerteza e a solidão são sim, aspectos dessa forma de vida autônoma, mas elas não são tão ruins. Elas movimentam, fazem a maquininha da gente funcionar, tornam mais prazerozas as nossas conquistas e mais saudáveis as nossas relações.

Quando tudo que se tem é a sí próprio, é impossível culpar outra pessoa. É necessário admitir os erros, aprender com eles. Não dá pra eliminar as tuas próprias deficiências porque outra pessoa supre elas e não é necessário carregar ninguém nas costas.

Ficamos dependentes de nós mesmos. Isso parece óbvio, mas raramente alguém reflete sobre a dificuldade que isso traz quando planeja viver sozinho.

Mas é assim, e é bom assim.

Read Full Post »