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Archive for agosto \29\UTC 2006

Simbiose

Às três da manhã, eu e meu apartamento nos fundimos. Andei pelas três peças observando as paredes amareladas e a mobília incompatível e vi o quanto ele se parecia comigo, limitado, diverso e meio vazio. Ele tem tudo o que me representa e a disposição das coisas estava numa desordem que fazia todo o sentido. Fui parte do ambiente por umas horas. Vi na fumaça bruxuleante do cigarro, na luz fraca da lâmpada do banheiro, nas minhas roupas velhas, na discussão na rua escura e fria lá embaixo, uma coisa só. Como um dos quartos de Arturo Bandini, mas sem ilusões, de Henry Chinaski, mas sem amargura.

Eu era o apartamento e ele me imitava. Estavamos ambos frios e calmos, ambos com fome. Ambos acordados e lutando sem vontade contra a própria resistência, contra filmes de dentistas, contra eletrodomésticos perfeitos, contra o frio.

Por fim o silêncio escuro, vencido pelo canto monótono de um passaro comum, cede e dispersa as idéias pouco claras e conduz o homem e o apartamento para o sono profundo.

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A cidade na garrafa

Sinto uma inadequação total em qualquer ambiente, parece que nenhum lugar pode me abrigar, me dar asilo. Nenhuma companhia me basta, nenhum senso de direção me orienta.

Talvez eu seja mesmo diferente e me falte um ingrediente de tolerância ou de simples adaptação. Ou talvez falte a todos os outros o que em mim sobra. talvez ambos.

Tentei me adaptar a este mundo à exaustão e realmente estou exausto. Destituído de cor, de credo, de conta bancária e documentos. Meus ossos expostos às moscas e larvas da deterioração mental lenta e certa.

Minha memória estragada está sendo testada enquanto corvos de Poe anunciam o momento em que verei o fim desse suicídio involuntário, dessa queda pura.

Minhas ambições, meus sonhos, reduzidos como uma cidade miniatura, uma maquete patética que se desfaz ao vento incerto da realidade. Uma cidade em uma garrafa, jogada no oceano.

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Fiat Lux

Terei luz!! Talvez lucidez. As duas palavras tem a mesma origem, o mesmo radical. Lux, Fiat Lux! e a luz se fez e Deus viu que era bom.

Não ter luz significa apenas ficar no escuro. No fim é apenas isso. Todas as metáforas de luz e escuridão fazem todo o sentido.

Sem luz não tem trilha sonora. O que seria só mais um drama acaba assustando muito mais. Os filmes que causam mais suspense são os que trabalham com o silêncio.

Mas a luz está lá, correndo pelas veias de um pequeno apartamento, alimentando a fuga que uma televisão me proporciona, esquentando meu banho, preservando minha refeição. Podia ser pior, sim, podia. Que bom que tem a ulbra tv e o jazz. Nunca mais brigo com o entretenimento de massa. O torpor de um filme não escolhido depois uma janta não escolhida e uma longa caminhada, não escolhida, tem qualidades terapeuticas valiosas. Faz o tempo passar até que o sono chegue e repare tudo.

Sim, tem casos em que a escuridão repara tudo e no fim é ela que nos abraça, definitivamente. É ela que faz parar as convulsões de existir, a dor de respirar.

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Facas

Sinto como que uma faca se aproximando de mim. Sei que uma ferida se abrirá e que sangue jorrará até que algo aconteça. Sei também já antes que essa ferida pode vir a ser maior, que pode me consumir, que pode ser irreversível e levar uma boa parte de mim. Se ela levar alguma coisa além da minha paz neses dias medonhos, certamente vai ser uma parte bem grande, enorme, que não sei ainda medir.

Me esforço por não deixar que essa visão me domine, me paralize quando tenho que ser ativo. Penso que é provável que a faca só me fure sem levar nada, é até o mais provável, que ela deixe minha composição intacta e não me mutile.

Não quero ser pessimista e não sou. Por isso demoro à compreender a gravidade das coisas. Mas dentro de mim existem subdivisões não orgânicas, não efêmeras. Essa faca ameaça uma parte importante delas, o dano seria grande.

Talvez, é bem provável, essa faca machuque bem mais outras pessoas. Mas quero ser egoísta agora. Quero chorar a minha própria dor apenas, sem me preocupar em ser forte.

Ela já iniciou o corte e pará-la não depende de mim, é externo. Temo, muito o que pode seguir.

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Reproduzo aqui uma entrevista feita em 1935 com Johaness Boring, principal editor de Mark R. Klober. A entrevista foi publicada no semanário literário alemão Die Rasenhund. Na época, Boring estava com 97 anos e em plena forma física.

— Boa noite senhor Boring.
— Boa tarde.
— O senhor, durante 5 anos foi o editor exclusivo de Mark Klober, conte-nos, como foi a experiência de lidar com um grande gênio literário?
— Horrível! O que ele escrevia era lixo da pior categoria. Só tinha exclusividade por que nenhuma outra editora se enteressaria por aquilo. Ele tinha um comportamento repulsivo e estava sempre bêbado.
— O senhor diz que era lixo por causa da pornografia?
— Pornografia? aquilo não era pornografia, era lixo, você quer ver pornografia? Eu entendo de pornografia! dê uma olhada nisso.
— Oh não, obrigado.
— Vamos, dê uma olhada!
— Hummm belas coxas!
— Sim!! não é uma bela vadia!!
— Muito, o senhor não tem daquelas que usam roupas de couro?
— Aaahá garoto!! eu tenho de tudo aqui, olhe só essa!
— Nossa que baita rabo!!
— Hehehe viu só?
— Sim!! mas vamos continuar sobre Klober (depois o senhor me mostra mais dessa loira!). Klober tinha um comportamento totalmente desregrado, a história registra que…
— Ele era um devasso!! por isso morreu com aquela idade! O guarda que o encontrou descreveu um homem de 70 anos, ele tinha apenas 21.
— 17, ele morreu com dezessete.
— Filho da puta!! ele me disse que era maior de idade!! se as autoridades me pegassem dando bebida e ópio para um menor… errh hã onde paramos?
— Seu comportamento sexual era muito anômalo?
— O garoto gostava de se divertir, eu só achava estranho quando era com animais, eu não aprovava, com homens era estranho também, mas vá lá, agora, ovelhas são para se comer, no sentido gastronômico!
— Bem, anh, Klober tinha algum patrocinador?
— Nunca soube de onde o bastardo tirava dinheiro, só me importava que pudesse pagar adiantado. Nunca mais trabalhei fiado! Desde que perdi 50 libras!! 50 libras fazem falta!!
— Bem, como o senhor sabe, Klober é considerado por muitos críticos da atualidade como o pai do realismo fantástico, e até mesmo grandes nomes dessa corrente literária referem-se a ele com reverência. Na época, o senhor poderia pressintir esse potencial nele?
— zzzzz
— Senhor Boring?
— Ah, você ainda está aí? o que dizia?
— Que como o senhor sabe… esse potencial nele?
— zzzzz
— Senhor Boring??
— Ah sim, me desculpe. Martha! acompanhe o cavalheiro até a porta.
— Mas senhor Boring, a entrevista!
— Ora, me mande pelo correio. Mas veja bem! às suas custas!

Como se pode perceber pela entrevista reproduzida acima, Mark R. Klober foi um homem que deixou profundas marcas nas pessoas com quem conviveu, provocando as mais variadas reações.

Tornou-se um dos principais nomes da literatura anglo-saxã e um mito por seu comportamento excêntrico.

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As canções vão parar de ecoar em mentes distantes, pré-históricas, quando infâncias eternas-internas de indivíduos-universo cessarem de existir. Calarão profundamente as vozes que ditam os espaços mentais e constróem mundos padronizados de imagens inertes e sem sentido.

Choverão então valentinas e barbarelas e as pin-ups da antiguidade serão consideradas as claves musicais e alfabetos, ostentarão em suas cinta-ligas os sintagmas da linguagem, e seus corpetes expressarão sentidos sutis e ironias finas, os penteados serão acentos de tonicidade e os sapatos sinais diacríticos.

E essa nova gramática será a voz de milhões e a liberdade de todos. Será uníssona e unívoca, não haverá confusão, pois os signos não serão mais abstrações racionais e sem coloração emotiva, falarão diretamente à nossas pulsões mais antigas, nosso instinto mais básico.

Essa linguagem será tão fluida quanto o instinto. As bases da conjectura deixarão então o árido solo da razão e confluirão para o translúcido e instantâneo oceano da subjetividade.

Incorporaremos o caos e entenderemos então todos os mecanismos. Revogaremos a lei da gravidade, e dividiremos por zero. Descobriremos a raiz quadrada de menos um.

Livres do aparato racional, poderemos extrapolar as raias do possível, delimitar o universo de outra forma, abarcar a noção de infinito. Livres das travas lógicas, teremos então condições de existir, real e simplesmente, existir.

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Another sad one…

Estou parado na chuva, queimando por dentro, esperando que a nuvem que me encobre a visão suma. Raiva, ela de novo me possui em cores rubras. Minha raiva tem direção, ela sempre aponta pra mim mesmo, não importa a situação. É sempre autodestrutivo.

Em poucos minutos o som do trovão enfraquece e só se ouve a água. Temo ter incorporado o motivo às minhas desilusões.

Ilusões.

São coisas que não existem ou é só o que existe?

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