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Archive for outubro \24\UTC 2006

Cruzamentos

Foi com certeza a coisa mais impressionante. O que ele fez era impossível, só existia na imaginação de algumas pessoas e nas crenças de outras. Talves um nerd ou um iogue aceitassem de outra forma, mas ele era cético. Entretanto o copo continuava a flutuar em sua frente respondendo aos movimentos de seus olhos como um balão preso a uma corda responde aos movimentos de uma criança. Deixou o cigarro parado no ar, pegou o copo e certificou-se de que era água o conteúdo. Escreveu seu nome no ar manipulando a fumaça do cigarro. Gostou da situação.

Isso foi há 5 anos. Agora ele tem um incrível domínio dessa capacidade e não precisa mais do transporte público. Consegue atingir altas velocidades e passar sem ser visto pelas pessoas. Já impediu sérios acidentes e salvou muitas vidas, mas nunca contou a ninguém.

Uma vez leu que as três dimensões cartesianas e o tempo eram uma coisa só. Que a noção de distinção entre eles era ilusória, devida unicamente à limitações de nossa percepção e que determinadas forças poderiam provocar distorções nesse continuum. Pensou então que o que fazia era simplesmente modificar a forma da realidade, puxar as teias que ligam e sustentam os objetos, como quem opera um marionete. Com o tempo passou a enxergar essas finíssimas linhas.

Não sabe se é realmente isso, mas acha que é uma boa explicação e que por enquanto dá conta de sua curiosidade.

Uma noite enquanto andava pelo centro da cidade sentiu uma vibração anormal, tentou controlar as ondas mas elas ofereciam muita resistência, uma resistência deliberada, inteligente. Intrigado, puxou as cordas da realidade com mais força e uma moça nua apareceu diante de seus olhos impressionados, ela também assustada. Uma fração de segundo e ela retoma sua frequência e vai, ele não sabe de onde ela veio, não sabe se realmente ela era o que parecia. Mas o que parecia é que tinha apanhado um peixe estranho em sua rede. algo que corria debaixo do tapete da realidade, imperceptível aos menos atentos.

Ele sabe agora que não é o único que pode fazer coisas estranhas.

*****

Naquela noite ela chegou mais cedo em casa, antes do azul tingir o firmamento. Sem o prazer e a euforia que normalmente acompanhavam suas corridas noturnas. Dessa vez ela suava e estava confusa. Nunca fora notada antes, nunca tinha visto um ser humano capaz de capturá-la. Será que existe mais alguém assim? Será que estava atrás dela?

Não poderia estar, ele também estava assustado, mas como conseguiu? A força com que foi puxada, nunca tinha visto antes…

*****

Do espelho ele observa, ela está diferente hoje. Primeiro pensou que ela tinha notado sua presença. Isso as vezes acontece, mulheres são mais sensíveis, notam quando alguém está olhando, principalmente para a nuca. O que faz nesses momentos é congelar os movimentos e tentar manter a mente sem pensamentos.

Mas não era isso, ele não foi notado. Ela parece assustada, acuada, mas não é com ele, já chegou assim.

Já faz algum tempo que ele a descobriu e desde então sempre visita seu espelho. Há algo muito intrigante na vida dela, dormindo durante o dia, saindo nua pela madrugada. Pensou que fosse prostituta, mas não parecia, talvez uma vampira, mas não sabia se isso existia. Sempre chegava transpirando, com a respiração acelerada, e com um sorriso de saciedade no rosto. Nunca usava maquiagem e desorientava seu apurado senso estético. Era linda, linda, mesmo sem um baton, sem nada que não fosse seu. Sempre alheia à tudo que ocorre em sua volta, parece que vive pelo prazer, um prazer que não conseguia compreender.

E agora isso! O que teria acontecido? Porque o transtorno? A noite é cruel, talvez um assalto? tentativa de estupro? Não, ela estaria machucada e abalada. Ela está impressionada e preocupada. Algo que ela não ousa contar, talvez um segredo descoberto? Talvez alguém tenha notado nela o que ele gostaria de saber.

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Fim

Acabou. Início, meio e fim.

Ela foi perfeita abordando gradualmente, fazendo com que as coisas viessem aos poucos, omitindo o que poderia me ferir. Mas minha cabeça não funciona com graduações e eu só preciso de uma nota para reconhecer a música.

Uma música amarga. Quando percebi do que se tratava, tomei a batuta e regi a orquestra, conduzi a falta de articulação, a confusão de acordes e silêncios e recriei a sinfonia, uma sinfonia que conheci ontem, e que só precisa de uma execução.

Execução. Tomei a faca de suas mãos, não, tomei suas mãos, que seguravam a faca e guiei o golpe. Emprestei a força que lhe faltava, senti o gosto do meu sangue.

Sangue. Ele escorre por meu rosto disforme. A força do golpe é revivida constantemente. Assim serão os próximos dias, talvez os meses.

Ela foi perfeita. Durante todo o tempo… E continua sendo.

Foi meu estado que levou a isso, minha depressão, minha auto-destruição, minha doença.

Irreparável. Irrevogável. Interminável…

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“A vida é uma história contada por um idiota, cheia de sons e fúria, vazia de significado” Macbeth, cena V, ato V.

É incrível como essa frase resume tudo. Todo o “sentido da vida”. O sentido da vida é que a vida não tem sentido. Simples assim. Nada de toques de mágica, deuses com comportamento humano, espíritos da natureza e toda essa tralha.

É pretensão pura pensar que somos o centro da “criação”. A vida (a nossa também) não passa de um algoritmo, uma função totalmente mecânica, em todos os níveis, sem qualquer deliberação, sem nenhuma direção. Tudo o que acontece não segue qualquer rumo, senão o da aleatoriedade.

A mente não é responsável pelo universo, não existe projeto. Você até pode dizer que se jogar muitas barras de ferro no chão elas não vão formar o mecanismo de um relógio, ele precisa de projeto. Sim, é verdade, mas pense bem, fora de nossa própria mente, qual o significado de um relógio? No final, é apenas mais uma das combinações possíveis.

Nossa percepção do mundo é uma distorção. Nossa mania de significar tudo, de ver tudo com uma escala de valores é que nos faz pensar que somos tão importantes e que as coisas todas precisam ter algum propósito.

A mente não é o resultado de um processo de evolução, processos de evolução não tem resultados. Ela é apenas uma etapa como qualquer outra. Um bom truque que demonstrou favorecer a sobrevivência da espécie. Nosso raciocínio está longe de ser o acesso perfeito à verdade do universo.

Eu já disse isso antes e repito: estrelas são objetos, tem o mesmo valor que pedras, relógios ou pessoas. Não tem nada de especial. Nós é que valoramos, fora dessa perspectiva não existem valores!

Não são as estrelas que brilham, são nossos olhos!

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