Feeds:
Posts
Comentários

Archive for maio \10\UTC 2008

Era uma tarde qualquer de um outono típico, o sol esquentava suas costas na medida certa e o cheiro da grama molhada, das árvores, do vento, refrescava seu rosto, provocando a exata sensação que precisava. Era a evocação desses elementos que o remetiam a uma infância perdida, esquecida entre tantas memórias mais frequentes, e por isso, menos eficazes. Esse fragmento não era associado a qualquer fato histórico, existia independente de situações específicas. Era um cenário apenas, um cenário de memória.
 
Em outra ocasião, pela janela do ônibus, seus olhos encontraram uma ferragem, no bairro onde viveu na infância. Era uma ferragem nova, o prédio, também novo. Apesar de não carregar a intensidade certa, melancolia seria a palavra mais aproximada para a sensação que o abateu naquele instante. Não, ele não guardava memórias dessa ferragem, nem de nenhuma outra. Mas no lugar onde se estabeleceu a ferragem, funcionava um pequeno bazar, com uma banca de revistas e era nessa banca que gastava o dinheiro que recebia de seus pais, comprando histórias em quadrinhos. Lembrava do cheiro daquelas revistas, da ansiedade por um novo número, e do tempo que levava para escolher o que comprar. O lugar não existia mais e essa memória era dele indissociável.

No momento presente ele percebe essas flutuações da memória. Gostaria que a loja de revistas fosse eterna, ou móvel como o dia de outono. Sabia que poderia tentar isso em outras bancas semelhantes, até mesmo tem memórias diferentes para cada banca de revista que conheceu. Mas, ao contrário do dia de outono, aquela banca não podia ser reproduzida, não era cenário apenas. Mesmo que todos os fatores que lhe evocavam a lembrança da banca se repetissem, o cheiro das revistas, os títulos, a dona da banca que lhe vendia fiado, as expectativas, e tudo o mais, não seria a mesma banca. A banca não era apenas ambiente, era viva e pulsava dentro dele.

De certa forma a banca de revista era responsável por uma parte do que ele se tornou. Sabia no íntimo, que aquela banca havia influenciado grande parte de suas decisões, planos e visão de mundo. E é realmente surpreendente que uma banca de revistas tenha um peso educacional maior do que qualquer escola que tenha frequentado, que a própria familia e que a igreja que costumava frequentar na mesma época. Mas tinha, a banca fora o liceu de sua infância. Todas as histórias e mundos mágicos começavam naquela banca, que agora havia se tornado uma ferragem.

 
Essa falta de portabilidade de algumas memórias, essa insistência de se prender a coisas e lugares, isso o deixava tenso, gostaria de poder emular a qualquer momento a velha banca, mas sabia que isso não era mais possivel. Ninguém teria se preocupado em registrar a banca de revistas, nem mesmo em foto. Talvez os antigos donos, mas já não tinha noticias deles há muito tempo.
 
Teria que se contentar com a lembrança parcial, apagada, como um café fraco e sem aroma, de um dos fragmentos mais significativos de sua vida.

Read Full Post »

Offline

Pois é, estou offline de novo. Dessa vez por falta de pagamento. Antes disso, morei por 1 ano na Cidade Baixa sem computador, e alguns meses mais sem internet. Nos últimos meses eu tinha uma conta da gvt de 1mbps.
 
Dessa vez não é nada desesperador, tenho a previsão de pagar tudo em algumas semanas, mas de qualquer forma, é interessante verificar como a rotina muda sem acesso à rede.
 
Da primeira vez (pelo período de 1 ano e pouco) percebi que eu estava lendo mais livros, assistindo mais filmes e até mesmo limpando e arrumando minha casa, fazendo as coisas com mais substância. Reparei que o acesso a tanta informação me deixava muito mais com metadados, informação sobre a informação, do que com conhecimento de verdade.
 
Bem, voltei a ter a web completa e em banda larga! Maravilha! Parei instantaneamente de produzir, nunca mais li, assisti poucos filmes.
 
Meus hábitos de navegação são os piores possíveis: faço uma limpa em meus emails, orkut, myspace, twitter, facebook. Só leio porcaria, ou porcaria sobre coisa boa. Sub-uso a rede. Tenho, até, uma série de projetos que me levariam a algum lugar, acredito mesmo neles, mas não executo nenhum. Fico só circulando a perferia da web, lendo informação pouco importante, me acupando do culto do ego e de coisas engraçadas.
 
Não, não estou dizendo que a web só tem essa serventia pra mim. Eventualmente descubro artistas, escritores, linhas de pensamento diferentes que me capturam a atenção por curtos instantes. Mas não é essa a rotina, a rotina é atualizar a página de recados do orkut uma vez a cada minuto, e ficar decepcionado com a insistência do número de recados em permanecer igual.
 
A rotina é estar com o Gtalk e o MSN abertos, junto com 15 abas no firefox, 5 janelas de download de programas que melhoram a minha experiência com outros programas, sendo que um deles serve para melhorar o próprio download desses programas.
 
O uso que eu faço da internet é o pior possível. Em geral ela não me acrescenta tanto em cultura quanto me rouba tempo de me envolver com cultura de verdade.
 
Já assisti 5 filmes essa semana, filmes ruins, confesso, mas tem que ser gradual a transição para a alta cultura de novo. Exige algum empenho se envolver com temas e coisas densas, e existe muita oferta de diversão água com açúcar…
 
Pois é, o que eu sei é que eu sempre tenho essa sensação de que ficar sem internet não é tão ruim. Mas a falta dela se faz nas coisas em que ela é realmente útil, como contatos profissionais, pesquisa. Então, com essa desculpa (muito boa)eu sempre acabo cedendo.
 
Dessa vez eu só espero manter os hábitos saudáveis quando ela voltar…

Read Full Post »