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Archive for the ‘Ego Trip’ Category

Maquiagem

Ela cheirava a flores mortas. Era o excesso de maquiagem que a tornava vulgar para alguns e especial para mim. Especial porque era tão humana, tão clara. Seus medos e suas ilusões eram tão legíveis que era translúcida. As noites com ela tinham uma espiritualidade carnal tão forte. Eram carregadas de uma luxúria mundana tão sincera, transbordava de nós dois. Eramos parecidos assim, usando um ao outro para nos saciarmos, uma fome que nunca passava.

Gostava do jeito que fumava, de como soprava ruidosamente a fumaça no ar, o filtro do cigarro manchado de batom vermelho. Gostava de seus olhares. Olhava para mim como se me dissecasse, me classificando em seus pobres modelos. A verdade é que não entendia muita coisa. Mas eu também não. Então olhávamos um para o outro do mesmo jeito, um se achando mais esperto que o outro, ambos olhares dizendo: “não caio nesse teu jogo”.

Essa era a graça da coisa. Uma piada com uma blue note. Durou pouco, mas marcou forte. Da única maneira que poderia ser.

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Faz tempo que não escrevo, perdi o hábito. As teclas, que costumavam ser macias, estão duras, o toque não é mais suave. Estou aqui sentado, em mais um quarto quente, de outra casa. O silêncio noturno é o mesmo, a insônia também, o jazz também. Só eu que não sou.

Não saberia dizer exatamente quando aconteceu, mas mudei (de novo). Não tenho mais as mesmas expectativas. Mas acho que o que realmente mudou foi a ficção. Parece que histórias ganharam um novo significado para mim. Hoje sei que me alimento delas, são artigos de fé. Entendo que boa parte do que esperamos da vida é culpa das histórias que ouvimos, dos mundos que criamos.

(Outra coisa que permanece é a aleatoriedade) Fujiyama! Que bela música. Quase enxergo uma cerejeira florida, uma colina de pessegueiros, flores coloridas flutuando no ar outonal. Sim, jazz é uma linguagem, como bons filmes, boa arte. O que define se algo é bom é a qualidade da experiência que proporciona. Proponho um sistema de classificação: quantos dos outros sentidos e com que intensidade são mobilizados por uma experiência artística. Você já sentiu o cheiro da cena de um filme? Enxergou a paisagem de uma música? Escutou a melodia de uma pintura? Cinestesia meu chapa! Nem precisa de ácido!

Deixo que a música me transporte noite afora. Afora junto, de aforismo, aforismos noturnos. Rá! Bares e mesas distantes, não me faz falta hoje uma cerveja gelada, nem o calor gelado de uma companhia feminina (talvez o perfume faça). Não quero hoje nenhuma dessas formas de embriaguez. Quero a doce lucidez da fantasia, as promessas mornas de mundos que não conheço porque só existem dentro de mim.

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Amor

Um dia o mundo acabará, e estaremos lá nós dois. Não sei com quem tu estará, não sei se ainda lembrará de mim, mas eu pensarei em ti.

Não sei como será, talvez eu veja um clarão e uma nuvem de poeira e tudo então seja tragado pelo caos.  No momento em que eu entender o que está acontecendo, quando eu perceber a inevitabilidade de tudo, pensarei em ti.

Pensarei em ti como nunca pensei. Não da forma como pensava antes, não da forma como penso agora. Será algo novo e tu será nova pra mim…

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Tudo, e tu?

É meu amigo, poi zé. Nada que não se dê um jeito, não? Pois eu acho que não. Meio defícer me consertar depois de tanto tempo! Tantas pequenas antisocialidades vencidas e outras tantas adquiridas. Será que troquei as certas? Ou será que só ampliei a coleção com aquelas que mais prejudicam?

Acho que mantive as perigosas. Mas, como disse um bêbado, no velório do colega de copo: pois é, se fudeu!

Não vou começar com aquele papo conformista de que estou velho demais pra mudar isso, mas porra, to velho demais pra mudar isso. Tenho pequena parcela de total culpa na forma como lido com isso. A outra parcela eu jogo pra cima dos outros. Fico todo acoitadiço. A parte boa disso é que guardo sempre pra mim, ninguém me ve choramingando por aí avitimado de todas as malvadezas das pessoas, todas elas direcionadas ao mesmo tempo pra mim.

Ainda mais nessas épocas de aniversário, sempre fico um pouco emificado, avaliando tudo que deixei de fazer, por mongolice ou por medo, no ano que passou.

Mas a questão é essa. Adquiri certa autosuficiência , o suficiente para entrar em pequenos colapsos quando a coisa desanda. Quando se tem mamãe por trás ou mesmo uma esposa para fazer as vezes, é sempre mais fácil encarar o caos. Sozinho, não tem jeito, ou tu conserta essa caca ou ela fica ali te olhando, esperando uma atitude.

Coisinhas da vida! Mas se alguém me perguntar “tudo bem?”, vai ouvir um “tudo, e tu?”

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Não lembro se já disse isso aqui, mas adoro mudanças. A estabilidade me deixa um pouco cabreiro. E sou funcionário público, vai entender…

Depois de 3 anos morando sozinho e me autogerindo (muito mal, por sinal), estou dividindo apê com duas amigas, duas das pessoas que eu mais gosto nesse bueiro que chamamos de mundo, a Ana e a Paula. Resolvi aceitar o convite por que convivi com elas e julgo, pela forma que elas vivem, que podemos dar certo, nossas bagunças e manias são plenamente compatíveis e sabemos respeitar o espaço um do outro (confio mesmo que daqui há uns meses não estarei aqui me queixando do nosso sistema).

Não faço a menor idéia se vou comandar minha vida de forma mais responsável, mas pelo menos vou economizar mais de 50% do que eu gastava com as contas básicas (aluguel, condomínio, luz, telefone e internet) e isso significa, antes de tudo, um ponto de partida mensal melhor.

Mas não é de futuro que quero falar, é de passado. há poucas horas passei na frente do velho JK. Ainda tem coisas minhas lá, estou levando aos poucos. Olhei pela janela, e vi, o interior iluminado (sim, esqueci a luz acesa e a janela aberta) e percebi que essa era uma das últimas vezes que veria, ainda do meu jeito, o primeiro lugar em que morei sozinho. O lugar onde eu mais aprendi sobre mim, sobre meus medos e fraquezas e também sobre minhas alegrias e forças. Dificilmente morar sozinho de novo vai ser algo tão interessante quanto foi no jk.

Não fiz metade do que eu queria ter feito com ele, não deixei ele com a minha cara, embora sim, ele parecesse comigo em muitos aspectos, mas fui transformado por ele e pelas experiências que me proporcionou. Nele eu amei e me decepcionei, fui amado e esnobei, fui superficial, fui profundo, testei meus limites, tanto em energia de buscar por metas, quanto em apatia. Só as paredes dele souberam, só elas, mais ninguém.

Soube o que era solidão de verdade. Me assustei e me acostumei, aprendi a lidar com ela e, principalmente, aprendi a ser feliz com a minha própria companhia. Me diverti e me entediei. Fiz o melhor e o pior sexo. Vivi intensamente.

E agora que passo na frente dele vejo que pode ser uma das últimas vezes que verei assim um lugar tão importante, sinto saudades já. O jk que me ensinou que a vida não é aquela coisa certa, que você vai lá, faz, e sempre vai ter apoio para as consequências, mas sim um campo aberto e escuro, cheio de armadilhas, onde se anda sozinho, sem se saber para onde ir, mas que em compensação, está cheia de boas surpresinhas, reservadas para os mais audazes.

São as últimas vezes que vejo esse lugar!! Não há como esquecer o jk e o que ele me ensinou. Aliás, a única coisa que nunca fiz no jk foi cozinhar. Eu nem tinha fogão! Bom, talvez essa seja uma das coisas que minha nova casa me ensine né?

Não darei adeus ao jk e a tudo que ele representa, levarei para sempre comigo… mesmo assim, sentirei saudades…

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Liberdade?

Uma das piores merdas na vida é que, antes mesmo que tu possa dizer pra ela que tu não quer o que ela quer pra ti, ela já te engoliu, mastigou e cuspiu, e tu já tá um bagaço, imprestável.
Não, ela não te espera meu chapa, ela toca por cima!
Eu rio muito das pessoas que dizem ter o controle de suas vidas. Elas simplesmente não discordam do caminho que a filha da puta escolheu pra elas.
Simples assim, existem duas estradas predefinidas, eu escolho a da direita e, nossa, como sou independente! Não arrisco pular a cerca de arame farpado e ir pelo meio do mato. vou pela estradinha segura e previsível que muitos já trilharam.Mas foi MINHA escolha!
Quanta arrogância. É preciso adimitir, somos todos uns fodidos sem qualquer mapa ou bússola pra nos orientar sobre o futuro. Temos tanto medo do que pode existir em um caminho novo que não saímos do velho.
Nos tornamos médicos, advogados, padres e auxiliares administrativos em hospitais do SUS, mesmo que isso não corresponda nem a 0,0001% de nossas verdadeiras expectativas quanto à vida. E pra não admitirmos o quanto somos CAGÕES, celebramos a aprovação em um concurso público como uma vitória pessoal. Nos formamos em alguma faculdade que nos limita a visão sobre o mundo e nos tornamos a profissão que exercemos, temos orgulho disso. Sou o Dr. Fulano de Tal. Se me chamam pelo primeiro nome, fico ofendido por não estar precedido do título, aliás, podia mesmo ser somente o título. Me massifico em um estereótipo profissional qualquer. Me identifico com um código de costumes, com os instrumentos e idumentária do meu trabalho.
O que eu queria mesmo? Queria estar surfando na austrália, fumando charutos em cuba, queria ser ator, ter uma banda de rock, pintar quadros, tirar fotos, escrever um livro, fazer um filme, abrir um posto de gasolina no texas, ou uma sorveteria no alaska. Queria proteger as pessoas dos malfeitores, ser um tira durão, ou um detetive sacana e esperto. Mas essas coisas são tão infantis, são tãããããão românticas. Não cabem na vida adulta.
Porra, não posso me entregar assim a fantasias infantis. Vou fazer algo extremamente oposto ao que quero, por que meus pais fizeram, por que é um dos pilares da civilização, por que deus quer, por que dá dinheiro. Foda-se minhas necessidades, foda-se o fato de que vou passar bem mais da metade dessa existência de merda sendo fodido no rabo por não estar fazendo o que quero, por não estar pensando e vivendo por mim mesmo, indo pra onde eu quero ir.
Caralho, isso é escolha? É escolha fazer tudo como está num manual fodido, cagado por terceiros? É ter o controle sobre a própria vida dormir e acordar cedo todos os dias? Usar quase metade do dia fazendo coisas que subutilizam tua capacidade e mesmo assim te tomam toda a energia? Estar dormindo ou anestesiado pelo cansaço e pela frustração na outra metade do dia? É isso que escolhemos? Essa é a nossa grande liberdade?
Então faz o seguinte, pega essa liberdade toda, esse poder de decisão, enrola bem direitinho, passa um óleozinho e enfia NO CU!!!!!!!

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Silêncio

Começo a perceber que para escrever é preciso de um pouco de auto estima.  Talvez seja por isso que não sai nada dessa cabeça nos últimos tempos. Não tenho muito disso ultimamente, não o suficiente para escrever.

Mesmo que seja para me ironizar ou me detonar, é preciso uma certa sensação de superioridade ao hábito, de ter certeza de que ele é patético mas que, “vejam, eu noto isso, tá no papo!”.

Isso é o que me falta. Me falta ser mais alheio a mim mesmo, me levar menos à sério. até que isso aconteça, não vai fluir muita coisa e o que vier, vai ter o desgosto da falta de consciência, a mediocridade de quem não percebe o mundo à sua volta por que tem os olhos fechados pelo medo.

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